O passado era como um Cérbero de infinitas cabeças e mandíbulas, pronto para dilacerá-la em pedaços. Ela, com o queixo apoiado sobre a mão esquerda, olhando para o tempo através de tudo o que tinha a sua volta, deixou que, enfim, uma pequena e tímida lágrima lhe escorresse o rosto.
Espelhos (1)
Caminhando por entre casebres e becos escuros, percebi que a vida mora dentro de cada um e, quando este não a vigia, ela corre e some. Vai embora como um pássaro outrora preso na gaiola. Foi assim que percebi que viver é tão bem mais que apenas aproveitar cada momento, mas prestar atenção a todas as cores que compõem o espectro luminoso; entender que os cavalos relincham por algum motivo em especial. Estariam eles ouvindo os passos do futuro que se aproxima?
Morangos sem reflexo
Naquele ano o verão lhe veio como que com lembranças aleatórias de coisas que pareciam tão recentes; como quem some sem motivo algum e depois reaparece como se numa primeira vez. As comparações não eram metáforas, tampouco o tempo corria e desaparecia. Não. Não mesmo. Ele deitava no chão, arrastava-se por cima do carpete novinho em folha, virava e encarava o teto. Ele fazia de tudo para demorar-se em si mesmo e sobre o mundo.
“Get me away from here, I’m dying. Play me a song to set me free.”
Foi assim desde o início do ano. Como que caminhando para um ponto final. Eu vinha escrevendo incansavelmente, pondo vírgulas e dois pontos e quaisquer outros sinais gráficos que não deixassem o texto final com cara de fim, de despedida. Mas é chegada a hora. A hora do espanto, a hora do horror, a hora do terrível fim. Não importa mais o quanto eu tenha tentado ou continue tentando. O próprio tempo grita para que eu pingue a tinta no papel. O próprio tempo pede por um ponto final e, cá estou eu, terminando esta história.
Sob a luz da clareira (1)
Quando as nuvens se tornaram claras e todas as janelas se abriram, seus olhos transparentes tornaram-se capazes de observar todas as infinitas cores do, outrora terrível, espectro perfeito de luzes cintilantes.

Carta de Alexandra Josen Marion III
Nesses últimos dias – os quais nem sei quantos, pois perdi completamente a noção de tempo -, um maravilhoso e confuso sentimento, chamado amor, transformou-se no mais doloroso e pesado deles: a saudade.
Sob a escuridão da meia-noite (1)
Foi então que, de repente, as folhas se transformaram em aves e as árvores num emaranhado de pesadelos.
À propos de Carmen (Bizet)
Como se Bizet tivesse passado a noite ao meu ouvido, sussurrando frases aterrorizantes e verdadeiras, minhas mente acordou seca de mensagens e/ou pensamentos. Bastaria deitar sob a sombra de uma árvore morta, bastaria olhar para os epitáfios dos túmulos dos inimigos, bastaria sorrir para o mal que se aproxima. Além de tudo isso, Don José e Carmen me convidam para dançar, cantar e morrer.